
Em outubro de 2016, três meses após o impeachment de Dilma Rousseff, acontecia na aldeia Catrimani (Terra Indígena Yanomami-AM/RR) a VIII Assembleia da Associação Hutukara. No início da noite, uma intensa fumaça toma a aldeia enquanto acompanhamos o reencontro de uma família Yanomami no pátio central.
Crítica: Ouvir o que os povos indígenas têm a dizer. Essa é a preocupação principal de A Fumaça e o Diamante. O curta apresenta um vislumbre da reunião de uma família Yanomami no pátio central da aldeia Catrimani. Um único plano-sequência de cinco minutos mostra essa aldeia tomada pela fumaça, que não foi produzida pelos indígenas. Curto, mas preciso, o filme toma o tempo suficiente para dar o seu recado. O que tem invadido as aldeias, as nossas casas, a cidade onde habitamos? O que é preciso preservar e o que é preciso combater?
Ouvimos em voz over Davi Kopenawa, uma das principais e mais importantes lideranças indígenas hoje no Brasil. É a sua voz que dá conta de revelar, por meio da névoa que encobre as existências indígenas, a força de combate e o pensamento daqueles que sabem muito bem quem é o inimigo e como ele age. Escutamos Kopenawa falar sobre o sentido do diamante para eles - mais um símbolo de riqueza e exploração natural, mas também de força bruta - enquanto a vida continua na aldeia, as crianças brincam, as pessoas cuidam de seus afazeres, mesmo com a fumaça tomando conta do ambiente. A câmera gira ao redor de seu eixo como se buscasse um lugar de respiro, um ponto de fuga. O curta se constitui, portanto, de uma imagem de resistência e resiliência, o que tem sido a tônica das vidas indígenas há muitos séculos, de modo sucinto e objetivo.
Vale pontuar que o curta foi filmado poucos meses depois do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Os povos indígenas sempre foram alvo das arbitrariedades dos poderosos, principalmente das elites agrárias do país, e sofreram com a negligência dos mandatários, mas a partir daquele momento as forças políticas que passaram a governar o Brasil tinha muito menos apreço e interesse dar assistência e cuidar da população indígena do país - os yanomami, inclusive, foram um dos povos que mais sofreram com a pandemia de covid-19. Em A Fumaça e o Diamante, os povos indígenas são donos da própria narrativa, fazendo ecoar sua voz para além das matas. (Rafael Carvalho)