Por Francisco Schettini e Ana Paula Marques
A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) passou a ser considerada como língua independente em 2002, quando foi instituída a Lei nº 10.436, que determinou a LIBRAS como meio de comunicação e expressão da comunidade surda no Brasil. No entanto, a história da língua de sinais no país é muito mais antiga.
Em 1855, o Imperador Dom Pedro II convidou o professor francês Ernest Huet para ensinar a língua de sinais aos surdos no Brasil. Huet era surdo e adepto ao método de Charles Michel de l’Épée, um abade francês que elaborou sinais para se comunicar com os surdos que viviam nas ruas de Paris e foi o fundador do Instituto de Surdos de Paris.
Quando Huet chegou ao Brasil, logo foi criado o Imperial Instituto dos Surdos-mudos (atualmente Instituto Nacional dos Surdos – INES), no Rio de Janeiro. Ernest passou a ensinar a língua de sinais aos poucos surdos que podiam frequentar o instituto, que só recebia homens. Huet, assim como o próprio Dom Pedro, teve um legado enorme para a criação da LIBRAS.
Em 1880, o Congresso de Milão, na Itália, definiu a oralização como oficial para a educação de surdos no mundo. Muito tempo se passou até que o Brasil voltasse, na década de 1970, a ter a língua de sinais como um método de ensino dos surdos, intercalado com a escrita do português e com a oralização.
A lei de regulamentação da LIBRAS foi muito importante para a comunidade surda, mas os desafios ainda persistem, sobretudo no meio do entretenimento. Em 2020, a Agência Nacional de Cinema (Ancine) determinou que todas as salas de cinemas do Brasil deveriam oferecer recursos de acessibilidade, sobretudo LIBRAS e audiodescrição (recurso de acessibilidade para cegos). Em 2019, somente 8% das salas de cinema do país possuíam estes recursos.
A determinação da Ancine se deu com base em estudos e experiências internacionais de países como Estados Unidos, Austrália e Reino Unido. Ainda que sejam exigidas das salas de cinema que os recursos de acessibilidade estejam disponíveis, ainda há uma preocupação com o cinema nacional com relação a esses recursos.
Acessibilidade no Cine Movimenta Centro
Nas cidades de Vitória da Conquista, Itabuna, Jequié, Guanambi e Porto Seguro, o projeto de exibição de filmes nacionais, Cine Movimenta Centro, tem se destacado por seu investimento em acessibilidade. A cada 15 dias, são oferecidas sessões adaptadas com recursos como audiodescrição, LIBRAS e legendas CC, através do aplicativo MovieReading, garantindo uma experiência cinematográfica inclusiva para todos os espectadores.
O projeto conta com uma equipe especializada em acessibilidade nas cidades onde é realizado. Todos os membros passaram por um treinamento, conduzido por Sandra Rosa, Consultora de Acessibilidade, para garantir que estivessem preparados para lidar de forma eficaz com a diversidade no Cine Movimenta Centro, proporcionando um ambiente verdadeiramente inclusivo para o público. “Desde sua idealização, o projeto buscou compreender o que é e como poderia se organizar, para que suas ações fossem pautadas na acessibilidade”, conta a consultora.
“Hoje é mais do que dever cidadão, é respeito à humanidade e à diversidade humana, mas neste caso é realmente considerar as pessoas com deficiência. É estar atento e produzindo para a mudança de paradigma à qual toda a sociedade precisa assumir e realizar. O Cine Movimenta Centro buscou e está buscando se colocar nesta mudança de paradigma”, ressalta Sandra Rosa.

LIBRAS no Cinema
As sessões das 15h, realizadas quinzenalmente nos Centros de Cultura das cidades participantes, são adaptadas com LIBRAS para garantir maior inclusão para espectadores surdos. Thaís Rosário, intérprete de LIBRAS em Itabuna, ressalta a importância da acessibilidade no Cine Movimenta Centro. “O projeto permite o acesso a filmes brasileiros raramente exibidos nos cinemas, promovendo a cultura nacional e oferecendo novas oportunidades para a comunidade surda. Além de proporcionar acesso cultural e oportunidades para profissionais da área de LIBRAS, o projeto garante acessibilidade linguística completa, desde a recepção até a exibição dos filmes, beneficiando tanto os surdos quanto aqueles que dependem de legendas”, afirma.
Jaqueline França, intérprete de LIBRAS em Vitória da Conquista, enfatiza o impacto do Cine Movimenta Centro “O maior desafio é oferecer serviços acessíveis em eventos culturais, artísticos e musicais, que ainda são raros. Projetos como o Cine Movimenta Centro não promovem apenas a inclusão, mas também educam a sociedade sobre a importância da acessibilidade universal. A cultura surda é diversa, abrangendo surdos oralizados, deficientes auditivos e surdos sinalizantes, cada um com suas próprias necessidades de comunicação. O projeto, ao integrar LIBRAS e legendas, permite que o cinema se conecte com todos esses públicos, superando barreiras linguísticas e promovendo uma experiência enriquecedora para todos”, pontua.
Viviane Marques, surda, avalia a experiência do Cine Movimenta Centro de forma positiva. Ela destaca: “É interessante para nós, surdos, desenvolver uma consciência crítica sobre o cinema, poder visualizar e deslumbrar as obras, não apenas ficar em casa. Ter a oportunidade de participar de momentos culturais, assistir e interagir nos permite reconhecer que nós, surdos, também somos capazes. Eu gostei muito de estar aqui e compartilhar essa experiência com outras pessoas; foi ótimo”. No entanto, ela também aponta as dificuldades que enfrenta em sua cidade, Vitória da Conquista: “A acessibilidade aqui é muito limitada, o que torna a experiência bastante desafiadora. Esta é a primeira vez que estou usando este aplicativo, mas, em cinemas, frequentemente nos deparamos com problemas. Tentamos resolver, mas é sempre complicado. Acredito que é fundamental que todos se unam para lutar por melhores condições de acessibilidade nos cinemas, para que possamos chegar e encontrar tudo funcionando como deveria”.

O Cine Movimenta Centro foi contemplado nos Editais da Paulo Gustavo Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal. Paulo Gustavo Bahia (PGBA) foi criada para a efetivação das ações emergenciais de apoio ao setor cultural, visando cumprir a Lei Complementar nº 195, de 8 de julho de 2022.











